Você é aquilo que pensa? A diferença entre ter um pensamento e se identificar com ele

Ao longo da vida, construímos muitas definições sobre quem somos. Dizemos “eu sou ansioso”, “eu sou inseguro”, “eu sou impaciente”, “eu sou assim mesmo”. Essas frases parecem apenas maneiras de nos descrever, mas podem revelar algo mais profundo: a facilidade com que transformamos experiências, pensamentos e estados emocionais em partes fixas da nossa identidade.
Sentir ansiedade, por exemplo, é uma experiência. Definir-se como uma pessoa ansiosa é outra coisa. Na primeira situação, reconhecemos algo que está acontecendo naquele momento. Na segunda, aquilo que sentimos passa a dizer algo sobre quem acreditamos ser. Essa diferença pode parecer pequena, mas modifica significativamente a maneira como nos relacionamos com nossa experiência.
Quando o pensamento se transforma em identidade
Pensamentos surgem o tempo inteiro. Alguns são simples e desaparecem rapidamente; outros se repetem durante anos. Quanto mais uma determinada narrativa se repete, maior pode ser nossa tendência de considerá-la uma verdade sobre nós mesmos.
Uma pessoa que viveu situações de rejeição, por exemplo, pode começar a pensar “ninguém realmente gosta de mim”. Depois de algum tempo, talvez essa ideia deixe de ser percebida como um pensamento e passe a funcionar como uma certeza. A partir dela, novas situações são interpretadas, comportamentos são escolhidos e relações podem ser construídas.
O mesmo acontece quando dizemos “não sou bom nisso”, “sempre estrago tudo” ou “nunca consigo mudar”. Uma experiência se transforma em conclusão; a conclusão se repete; e, pouco a pouco, aquilo passa a fazer parte da história que contamos sobre quem somos.
A questão não é simplesmente decidir que esses pensamentos estão errados. É perceber que existe uma diferença entre ter determinado pensamento e ser aquilo que ele afirma.

Pensamentos são acontecimentos mentais
Pode ser estranho pensar dessa maneira, mas um pensamento também é algo que acontece. Ele surge, permanece durante algum tempo e eventualmente se modifica ou desaparece. Basta observar a própria experiência para perceber isso.
Quantos pensamentos você teve ontem? Provavelmente milhares. Quantos consegue lembrar agora? Talvez muito poucos.
Mesmo pensamentos que em determinado momento pareciam extremamente importantes podem hoje não ter praticamente nenhuma relevância. Isso acontece porque nossa experiência mental está em constante transformação.
O problema surge quando determinados pensamentos recebem um status diferente. Em vez de percebermos “estou tendo um pensamento de incapacidade”, concluímos “sou incapaz”. Em vez de “estou sentindo insegurança”, chegamos a “sou inseguro”.
Aquilo que está acontecendo em nós passa a definir aquilo que somos.
A ideia de um “eu” permanente
Essa discussão encontra um ponto interessante de aproximação com o pensamento budista. Uma das questões presentes nessa tradição é justamente nossa tendência de nos apegar a uma ideia sólida e permanente de “eu”.
Dizemos “meu corpo”, mas também “eu estou cansado”, identificando o eu com o corpo. Em outros momentos, o “eu” parece estar nos pensamentos: “eu penso”. Ou nas emoções: “eu estou triste”. Ou nas opiniões, preferências, memórias e histórias que acumulamos.
Quando observamos com atenção, aquilo que chamamos de “eu” parece estar relacionado a uma combinação de experiências que estão continuamente mudando.
Isso não significa negar nossa identidade ou afirmar que não existimos. A questão é perceber que talvez sejamos menos fixos do que imaginamos.
E essa percepção pode ser libertadora.

Você pode sentir sem se transformar no que sente
Emoções são um bom exemplo. Quando sentimos raiva intensamente, naquele momento parece que toda a nossa experiência foi tomada por ela. Podemos dizer ou fazer coisas como se a raiva representasse completamente quem somos.
Mas a raiva passa.
O medo passa.
A tristeza muda.
Até a alegria se transforma.
Reconhecer isso não significa diminuir a importância das emoções. Pelo contrário, significa observá-las com atenção suficiente para não precisar se confundir completamente com elas.
Existe uma diferença entre dizer “eu sou a minha raiva” e perceber “há raiva em mim neste momento”. A segunda possibilidade cria espaço para sentir sem necessariamente reagir de maneira automática.
Mindfulness e a observação da experiência
Uma das contribuições do mindfulness é justamente desenvolver a capacidade de observar pensamentos, emoções e sensações enquanto acontecem. Não se trata de fazer a mente parar de pensar ou de substituir pensamentos desagradáveis por outros mais positivos.
Trata-se de perceber.
Um pensamento aparece. Podemos reconhecê-lo. Uma emoção surge. Podemos senti-la. Uma sensação desconfortável está presente. Podemos observá-la.
Nesse processo, começamos a descobrir que nem tudo o que surge dentro de nós precisa receber uma resposta imediata.
Podemos sentir medo e ainda escolher avançar. Podemos perceber raiva e decidir não responder naquele momento. Podemos ter um pensamento de incapacidade sem necessariamente transformá-lo em uma previsão sobre aquilo que conseguiremos fazer.
Entre a experiência e a resposta, começa a surgir um espaço.

Quem você seria sem algumas das histórias que conta sobre si?
Talvez algumas das nossas definições tenham sido importantes em determinados momentos. Elas nos ajudaram a compreender experiências, organizar o mundo ou até nos proteger. Mas isso não significa que precisem continuar nos definindo para sempre.
Vale observar quantas vezes usamos “eu sou” para descrever aquilo que talvez pudesse ser dito como “eu estou”, “eu sinto”, “eu penso” ou “isso está acontecendo comigo”.
Não é apenas uma mudança de palavras. É uma mudança de perspectiva.
Quando percebemos que pensamentos e emoções são experiências e não necessariamente definições permanentes, podemos começar a nos relacionar conosco com menos rigidez.
Talvez a pergunta “quem sou eu?” não precise encontrar uma resposta definitiva. Pode ser mais interessante observar, de tempos em tempos, quais pensamentos, emoções e histórias sobre você mesmo têm sido confundidos com quem você é.




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