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Por que somos mais compreensivos com os outros do que conosco?

Frederico Cesário
há 17 minutos
5 min de leitura

Quando alguém de quem gostamos atravessa um momento difícil, geralmente conseguimos enxergar aquela pessoa para além do que aconteceu. Se um amigo comete um erro, podemos reconhecer sua responsabilidade sem concluir que ele é um fracasso. Se está inseguro, lembramos de suas qualidades. Se algo não sai como esperava, somos capazes de considerar o contexto, as dificuldades e até dizer que ele não precisa resolver tudo imediatamente.

Curiosamente, essa compreensão nem sempre aparece quando somos nós que estamos sofrendo. Diante dos próprios erros, podemos nos tornar mais rígidos, impacientes e críticos. Aquilo que enxergaríamos como humano no outro passa a ser interpretado como sinal de incapacidade quando acontece conosco.

Por que conseguimos oferecer aos outros uma compreensão que tantas vezes negamos a nós mesmos?

Existe uma diferença entre olhar para o outro e olhar para si

Quando observamos alguém de quem gostamos passando por uma dificuldade, temos certa distância da experiência. Conseguimos considerar o contexto e lembrar que aquele momento não representa a totalidade daquela pessoa.

Quando somos nós no centro da situação, essa distância diminui.

Não vemos apenas “um erro aconteceu”. Podemos rapidamente chegar a “eu não deveria ter errado”. Depois, “eu deveria saber fazer melhor”. E, em alguns casos, “há alguma coisa errada comigo”.

Uma experiência específica começa a ganhar um significado muito maior.

Isso acontece porque não reagimos apenas ao acontecimento presente. Nossa maneira de nos enxergar também é atravessada pelas expectativas que construímos sobre quem deveríamos ser.

O peso do “eu deveria”

Grande parte da autocrítica aparece acompanhada dessa expressão.

“Eu deveria ter percebido.”

“Eu deveria estar melhor.”

“Eu deveria conseguir lidar com isso.”

“Eu já deveria ter superado.”

Existe uma versão imaginada de nós mesmos que deveria saber mais, errar menos, lidar melhor com as emoções e tomar sempre as decisões adequadas. Quando nossa experiência real não corresponde a essa versão, surge uma distância entre quem somos naquele momento e quem acreditamos que deveríamos ser.

É interessante perceber que nem sempre aplicamos o mesmo padrão às pessoas que amamos. Sabemos que elas podem estar cansadas, confusas ou assustadas. Reconhecemos que possuem limites e que nem sempre terão a resposta certa.

Com nós mesmos, frequentemente esperamos uma competência emocional que não exigiríamos de mais ninguém.

Autocrítica pode parecer uma forma de proteção

Ser duro consigo mesmo nem sempre surge simplesmente de uma falta de cuidado. Em alguns casos, a autocrítica pode funcionar como uma tentativa de proteção.

Podemos acreditar que, se nos cobrarmos suficientemente, cometeremos menos erros. Se anteciparmos nossas falhas, talvez a crítica dos outros doa menos. Se nunca estivermos satisfeitos conosco, talvez continuemos buscando melhorar.

A intenção pode até ser evitar sofrimento, mas o resultado nem sempre corresponde a ela.

Quando cada erro é recebido com hostilidade interna, podemos começar a temer situações em que exista a possibilidade de falhar. Em vez de favorecer mudança, a autocrítica pode alimentar vergonha, insegurança e a necessidade de evitar novas experiências.

Talvez seja importante perguntar não apenas “por que me critico tanto?”, mas também “o que acredito que essa crítica está fazendo por mim?”.

Compreensão não elimina responsabilidade

Existe um receio frequente de que nos tratar com mais compreensão possa nos tornar permissivos. Se eu deixar de me cobrar, será que vou me acomodar? Se não me culpar, vou realmente aprender com o que aconteceu?

Essa ideia parte de uma associação entre sofrimento e responsabilidade. Como se precisássemos nos sentir suficientemente mal para provar que reconhecemos nosso erro.

Mas responsabilidade não exige necessariamente punição.

Podemos admitir que uma atitude nossa prejudicou alguém, reconhecer as consequências e procurar reparar o que aconteceu. Podemos perceber que determinada escolha não foi boa e decidir agir de outra maneira no futuro. Podemos reconhecer que precisamos mudar um comportamento.

Nada disso exige concluir que somos pessoas ruins ou incapazes.

A compreensão pode, inclusive, tornar esse processo mais claro. Quando não estamos completamente ocupados em nos defender ou atacar, pode ser mais fácil olhar para o que aconteceu com honestidade.

O que a autocompaixão propõe?

Autocompaixão não significa dizer a nós mesmos que tudo está bem quando não está. Também não significa justificar qualquer comportamento ou fugir de experiências desconfortáveis.

Ela envolve reconhecer o sofrimento e desenvolver uma resposta que seja útil diante dele.

Imagine novamente alguém de quem você gosta. Se essa pessoa cometeu um erro importante, uma resposta verdadeiramente compassiva talvez não seja dizer “não se preocupe, você não fez nada”. Pode ser ajudá-la a reconhecer o que aconteceu, pensar em como reparar a situação e lembrar que aquele comportamento não precisa definir toda a sua identidade.

Por que seria diferente conosco?

Podemos dizer: “eu errei e preciso assumir isso” sem acrescentar “por isso, não tenho valor”.

Podemos reconhecer uma limitação sem transformar essa limitação na definição de quem somos.

Mindfulness pode nos ajudar a perceber como falamos conosco

Grande parte da autocrítica acontece de maneira tão automática que sequer percebemos sua presença. Um erro acontece e a sequência de julgamentos começa imediatamente.

Mindfulness pode nos ajudar a observar esse movimento.

Não necessariamente para fazer os pensamentos críticos desaparecerem, mas para reconhecê-los enquanto surgem. Podemos perceber que estamos nos julgando, observar quais palavras utilizamos e notar como nosso corpo responde a essa maneira de nos tratar.

Essa consciência permite uma pergunta importante: essa forma de falar comigo está me ajudando a compreender o que aconteceu ou apenas aumentando meu sofrimento?

Às vezes, perceber o tom da própria conversa interna já revela algo que não havíamos notado.

Falar consigo com gentileza não significa pensar positivo

Também não se trata de substituir toda autocrítica por frases positivas nas quais não acreditamos.

Se cometemos um erro, talvez não faça sentido dizer “eu fiz tudo perfeitamente”. Isso seria apenas outra maneira de fugir da realidade.

Uma resposta compassiva pode ser muito mais simples e honesta: “isso não aconteceu como eu gostaria”, “eu estou sofrendo com essa situação”, “preciso reconhecer minha responsabilidade” ou “posso aprender alguma coisa com isso”.

A diferença está em conseguir reconhecer a realidade sem acrescentar uma agressão contra si mesmo.

Autocompaixão não precisa distorcer os fatos para nos fazer sentir melhor. Ela pode justamente nos ajudar a permanecer diante deles.

A humanidade que reconhecemos nos outros também existe em nós

Quando um amigo sofre, conseguimos lembrar que sofrimento, dúvida, medo, erro e frustração fazem parte da experiência humana. Sabemos que ninguém atravessa a vida acertando sempre.

Mas quando estamos sofrendo, podemos experimentar uma sensação diferente: parece que só nós não conseguimos lidar adequadamente com aquilo.

A autocompaixão também envolve reconhecer essa humanidade compartilhada. Não para diminuir aquilo que estamos vivendo, mas para lembrar que vulnerabilidade não é uma exceção pessoal.

Errar é humano. Sentir medo é humano. Não saber o que fazer é humano. Precisar de ajuda também é humano.

Talvez seja justamente por reconhecer isso nos outros que conseguimos tratá-los com maior compreensão.

E se você estivesse do outro lado da conversa?

Diante de um momento de autocrítica, pode ser útil fazer uma pergunta simples: se alguém de quem gosto estivesse vivendo exatamente isso, o que eu diria?

Talvez você não retirasse a responsabilidade dessa pessoa. Talvez dissesse que ela precisa conversar com alguém, reparar uma atitude ou fazer uma escolha difícil. Mas provavelmente faria isso sem tentar convencê-la de que aquele momento representa tudo o que ela é.

Essa mesma combinação de honestidade e cuidado pode existir na maneira como nos relacionamos conosco.

Não precisamos nos transformar em nossos próprios juízes sempre que alguma coisa dá errado. Também podemos ocupar o lugar de quem observa, compreende e ajuda a encontrar uma resposta mais adequada.

Talvez autocompaixão comece quando reconhecemos que a humanidade que nos faz compreender os erros, limites e sofrimentos de quem amamos também deveria estar presente na maneira como olhamos para nós mesmos.

 
 
 

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