top of page
Untitled.png

Autocompaixão não é passar a mão na própria cabeça

Frederico Cesário
há 2 dias
5 min de leitura

Quando ouvimos falar em autocompaixão, é comum surgir uma interpretação equivocada: a ideia de que tratar a si mesmo com compreensão significa aliviar responsabilidades, justificar erros ou encontrar desculpas para não mudar. Como se precisássemos escolher entre duas possibilidades: sermos exigentes conosco para crescer ou sermos gentis conosco e correr o risco de nos acomodar.

Mas autocompaixão e responsabilidade não são opostas. Podemos reconhecer um erro, compreender suas consequências e assumir o compromisso de agir de maneira diferente sem transformar esse processo em uma agressão contra nós mesmos. Na verdade, talvez seja justamente quando deixamos de gastar tanta energia nos atacando que conseguimos olhar com mais clareza para aquilo que precisa ser transformado.

Por que acreditamos que precisamos ser duros conosco?

Muitas pessoas aprenderam que a autocrítica é uma forma de motivação. Quando cometemos um erro, pensamos que precisamos nos cobrar para garantir que ele não aconteça novamente. Quando não alcançamos um objetivo, acreditamos que alguma dose de insatisfação conosco será necessária para nos fazer tentar mais.

Frases como “eu deveria ter feito melhor”, “como pude cometer esse erro?” ou “eu nunca faço nada direito” podem parecer uma maneira de assumir responsabilidade. Mas existe uma diferença importante entre avaliar um comportamento e atacar quem o realizou.

“Eu errei” descreve algo que aconteceu.

“Eu sou um fracasso” transforma esse acontecimento em uma definição sobre quem somos.

Quando essa diferença desaparece, a tentativa de corrigir um comportamento pode se transformar em vergonha, culpa excessiva e sensação de inadequação.

Responsabilidade olha para o que aconteceu

Assumir responsabilidade exige reconhecer a realidade. Podemos olhar para uma situação e admitir que fizemos algo que causou consequências negativas, que poderíamos ter agido de outra maneira ou que precisamos reparar algum dano.

Nada disso exige negar o erro.

Autocompaixão não significa dizer “não foi nada” quando algo importante aconteceu. Também não significa retirar de nós a responsabilidade pelas nossas escolhas.

A diferença está na pergunta que fazemos depois de reconhecer o erro.

A autocrítica tende a perguntar: “O que há de errado comigo?”

Uma postura mais compassiva pode perguntar: “O que aconteceu, qual foi minha responsabilidade e o que posso aprender com isso?”

Na primeira pergunta, o problema se torna nossa identidade. Na segunda, existe espaço para compreender o comportamento e pensar em mudança.

Como você trataria alguém de quem gosta?

Existe um exercício simples que revela bastante sobre nossa relação conosco: imaginar como responderíamos se uma pessoa querida estivesse passando exatamente pela mesma situação.

Quando um amigo comete um erro e está sofrendo, dificilmente acreditamos que a melhor maneira de ajudá-lo seja dizer que ele é incapaz, que nunca faz nada direito ou que deveria sentir vergonha de si mesmo.

Podemos ser firmes. Podemos dizer que determinada atitude não foi adequada. Podemos incentivar uma reparação. Mas, se existe cuidado naquela relação, provavelmente faremos isso sem transformar o erro em uma condenação da pessoa inteira.

Curiosamente, quando somos nós que erramos, essa compreensão pode desaparecer.

Talvez valha perguntar por que acreditamos que merecemos um tipo de tratamento que dificilmente consideraríamos útil para alguém de quem gostamos.

Autocompaixão não significa ausência de limites

Tratar-se com compaixão também não significa permitir tudo a si mesmo. Em alguns momentos, uma atitude compassiva pode justamente envolver estabelecer limites, interromper um comportamento prejudicial ou fazer algo desconfortável porque reconhecemos que aquilo é importante.

Se uma pessoa está repetindo um comportamento que prejudica suas relações, por exemplo, autocompaixão não seria simplesmente dizer: “eu sou assim e as pessoas precisam me aceitar”.

Isso estaria mais próximo da resignação do que da compaixão.

Uma resposta compassiva poderia reconhecer que mudar é difícil, investigar o que sustenta aquele comportamento e, ao mesmo tempo, assumir responsabilidade por suas consequências.

Compaixão não elimina responsabilidade. Ela modifica a maneira como atravessamos o processo de mudança.

O que a Terapia Focada na Compaixão nos ajuda a compreender?

Na Terapia Focada na Compaixão, a compaixão não é entendida simplesmente como gentileza ou como uma tentativa de produzir sentimentos agradáveis. Ela envolve sensibilidade diante do sofrimento e disposição para responder a ele de maneira útil.

Isso é importante porque uma resposta compassiva nem sempre será confortável.

Às vezes, cuidar de nós mesmos significa reconhecer algo que preferiríamos evitar. Pode signific pedir desculpas, estabelecer um limite, abandonar um comportamento, procurar ajuda ou admitir que determinada escolha teve consequências.

A diferença é que essas ações não precisam nascer do desprezo por nós mesmos.

Podemos querer mudar porque reconhecemos nosso valor e o valor das pessoas que são afetadas por nossas escolhas, e não porque acreditamos que precisamos nos punir até nos tornarmos alguém melhor.

A autocrítica também merece ser compreendida

É fácil transformar a própria autocrítica em mais um motivo para se criticar: “eu não deveria ser tão duro comigo”. Mas isso apenas reproduz o mesmo mecanismo.

Talvez seja mais interessante observar para que essa voz crítica tenta servir.

Em alguns casos, ela pode ter se desenvolvido como uma tentativa de proteção. Se eu me cobrar antes que alguém me critique, talvez esteja mais preparado para a crítica. Se exigir perfeição de mim mesmo, talvez consiga evitar fracassos. Se nunca estiver satisfeito com meu desempenho, talvez continue melhorando.

Essas estratégias podem ter feito sentido em determinados momentos. O problema aparece quando continuam funcionando automaticamente, mesmo quando produzem mais sofrimento do que proteção.

Compreender isso não significa obedecer à autocrítica, mas perceber que até mesmo essa parte da nossa experiência pode ser observada com curiosidade.

Mindfulness e autocompaixão podem caminhar juntos

Mindfulness pode ajudar a perceber o momento em que a autocrítica aparece. Em vez de estarmos completamente envolvidos por pensamentos como “sou incompetente” ou “nunca faço nada certo”, podemos começar a reconhecer: “estou me criticando neste momento”.

Essa percepção cria um pequeno espaço.

A partir dele, podemos observar o que aconteceu, o que estamos sentindo e como estamos falando conosco. Talvez então seja possível perguntar se aquela maneira de responder realmente contribui para resolver a situação.

A autocompaixão acrescenta outra dimensão: diante da dificuldade que percebemos, como podemos responder de uma maneira que seja cuidadosa e, ao mesmo tempo, responsável?

Não precisamos escolher entre acolhimento e transformação.

Errar sem transformar o erro em identidade

Um dos problemas da autocrítica excessiva é que ela frequentemente transforma acontecimentos específicos em afirmações gerais.

Um projeto que não funcionou vira “eu não sou competente”.

Uma relação que terminou vira “eu nunca consigo manter ninguém perto”.

Uma decisão ruim vira “eu sempre faço escolhas erradas”.

A mente pega um acontecimento e constrói uma identidade ao redor dele.

Uma postura mais compassiva não precisa negar a experiência. Podemos reconhecer: “essa escolha teve consequências”, “eu não lidei bem com essa situação” ou “preciso aprender outra maneira de fazer isso”.

Mas podemos fazer isso sem acrescentar: “portanto, isso define quem eu sou”.

Somos maiores do que um erro, mas continuamos responsáveis pelos erros que cometemos.

As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo.

É possível mudar sem se odiar primeiro

Talvez uma das ideias mais importantes da autocompaixão seja justamente essa: não precisamos nos rejeitar para justificar uma mudança.

Podemos querer desenvolver novas habilidades porque reconhecemos nossas dificuldades. Podemos reparar um erro porque nos importamos com suas consequências. Podemos rever um comportamento porque entendemos que ele já não nos serve ou porque machuca outras pessoas.

Nenhuma dessas mudanças exige que primeiro concluamos que há algo fundamentalmente errado conosco.

Tratar-se com compaixão não significa abandonar o desejo de crescer. Significa questionar a ideia de que o sofrimento provocado pela autocrítica é o preço necessário para esse crescimento.

Talvez possamos aprender com nossos erros sem transformá-los em sentenças, assumir responsabilidades sem nos reduzir a elas e reconhecer nossas limitações sem perder de vista nossa humanidade.

Autocompaixão não é passar a mão na própria cabeça. É conseguir olhar honestamente para si mesmo, inclusive para aquilo que precisa mudar, sem acreditar que a violência interna seja necessária para produzir transformação.

 
 
 

Comentários


bottom of page