Acolher não é se conformar: como podemos lidar com emoções difíceis sem lutar contra elas?

Quando uma emoção desconfortável aparece, nossa primeira reação costuma ser querer que ela vá embora. Tentamos afastar a tristeza, controlar a ansiedade, conter a raiva ou encontrar rapidamente uma explicação para o medo. Existe uma expectativa de que estar emocionalmente bem significa sentir menos aquilo que consideramos desagradável.
Mas emoções difíceis fazem parte da experiência humana. Não conseguimos determinar tudo o que vamos sentir, nem impedir que determinadas situações nos afetem. Podemos, no entanto, desenvolver uma maneira diferente de nos relacionarmos com aquilo que surge. É nesse ponto que acolher uma emoção se diferencia tanto de tentar eliminá-la quanto de simplesmente se conformar com ela.
Por que lutamos contra aquilo que sentimos?
Naturalmente, buscamos experiências agradáveis e tentamos nos afastar daquilo que provoca desconforto. Quando sentimos dor física, procuramos alívio. Quando uma situação nos ameaça, buscamos proteção. Em muitos contextos, essa capacidade é importante.
Com as emoções, entretanto, nem sempre conseguimos simplesmente remover aquilo que incomoda. Podemos tentar nos distrair, evitar determinadas situações, racionalizar o que sentimos ou dizer a nós mesmos que “não deveríamos estar assim”. Ainda assim, a emoção pode continuar presente.
Nesse momento, surge uma segunda experiência além da própria emoção: a resistência.
Não estamos apenas tristes; estamos incomodados porque estamos tristes. Não sentimos apenas ansiedade; também pensamos que não deveríamos estar ansiosos. Sentimos raiva e, em seguida, podemos nos culpar por termos sentido raiva.
A experiência inicial ganha uma nova camada de sofrimento.

A diferença entre sentir e lutar contra o que sentimos
Imagine que você esteja ansioso diante de uma situação importante. Existe a ansiedade propriamente dita: pensamentos, sensações físicas, preocupações e impulsos. Mas também podem surgir pensamentos como “preciso parar de sentir isso”, “não deveria estar assim” ou “se estou ansioso, alguma coisa está errada comigo”.
A partir daí, parte da nossa energia passa a ser utilizada não para lidar com a situação, mas para lutar contra a própria experiência interna.
Reconhecer a ansiedade seria diferente. Poderíamos perceber: “há ansiedade presente neste momento”. Isso não faz necessariamente com que ela desapareça, mas interrompe, ainda que parcialmente, a exigência de que nossa experiência deveria ser outra.
Acolher começa justamente pelo reconhecimento daquilo que já está acontecendo.
Acolher não significa gostar
Um dos equívocos sobre aceitação emocional é imaginar que acolher uma experiência significa considerá-la boa ou desejável.
Não significa.
Podemos acolher o fato de que estamos com raiva e ainda considerar aquela emoção desagradável. Podemos reconhecer tristeza sem querer permanecer tristes. Podemos admitir que estamos com medo e, ao mesmo tempo, desejar atravessar aquele medo.
Aceitar que uma emoção está presente não é o mesmo que desejar que ela permaneça.
Existe uma diferença entre dizer “estou sentindo isso agora” e “quero continuar sentindo isso”. A primeira afirmação reconhece a realidade presente. A segunda expressaria uma preferência.
Podemos reconhecer uma experiência sem precisar escolhê-la.

Acolher também não significa se resignar
Outro equívoco é confundir aceitação com conformismo. Se reconheço que estou vivendo determinada situação, isso não significa que não possa fazer nada a respeito.
Aceitar a realidade presente pode, inclusive, ser necessário para modificá-la.
Se uma relação está me fazendo mal, reconhecer isso não significa permanecer nela. Se determinado comportamento meu está prejudicando outras pessoas, acolher minhas emoções não significa justificar minhas ações. Se estou insatisfeito com alguma área da vida, aceitar essa insatisfação não significa desistir de buscar mudanças.
A resignação poderia dizer: “é assim e não há nada que eu possa fazer”.
A aceitação pergunta: “isso é o que está acontecendo agora. Diante disso, o que está ao meu alcance?”
Existe ação possível dentro da aceitação.
Sentir não significa precisar agir
Essa distinção se torna especialmente importante quando falamos de emoções intensas.
Podemos sentir raiva sem atacar alguém. Podemos sentir medo sem necessariamente fugir. Podemos sentir ciúme sem transformar esse sentimento em controle sobre outra pessoa. Podemos sentir ansiedade sem obedecer imediatamente à necessidade de resolver tudo.
A emoção é uma experiência. A ação é uma resposta.
Quando as duas acontecem muito rapidamente, podemos ter a impressão de que uma necessariamente conduz à outra. “Fiquei com raiva, então respondi.” “Fiquei com medo, então evitei.” “Fiquei ansioso, então precisei verificar novamente.”
Mas entre sentir e agir pode existir um espaço.
É nesse espaço que podemos reconhecer a emoção, compreender o impulso que ela produz e escolher com maior consciência aquilo que faremos.

O que mindfulness pode oferecer?
Mindfulness pode contribuir justamente para o desenvolvimento dessa capacidade de permanecer com a experiência antes de reagir automaticamente.
Durante uma prática de atenção plena, não precisamos decidir se aquilo que aparece deveria ou não estar ali. Podemos perceber uma sensação desconfortável, um pensamento, uma emoção ou uma inquietação.
A proposta não é expulsar a experiência, mas observá-la.
Podemos perceber onde determinada emoção aparece no corpo, quais pensamentos a acompanham e quais impulsos surgem junto dela. Essa observação pode nos mostrar que aquilo que chamamos simplesmente de “ansiedade” ou “raiva” é, na verdade, uma experiência composta por diferentes elementos que também estão continuamente mudando.
A emoção deixa de ser um bloco único e passa a ser algo que podemos conhecer.
As emoções também são impermanentes
Quando estamos dentro de uma emoção intensa, ela pode parecer definitiva. É difícil imaginar a experiência fora daquele estado.
Mas emoções possuem movimento. Elas aumentam e diminuem de intensidade, transformam-se e se relacionam com novas experiências.
Isso não significa que toda emoção difícil desaparecerá rapidamente ou que basta esperar alguns minutos. Algumas experiências podem permanecer por bastante tempo e, em determinadas situações, merecem cuidado e acompanhamento profissional.
Ainda assim, reconhecer a impermanência nos ajuda a evitar uma confusão frequente: transformar “estou sentindo isso agora” em “vou me sentir assim para sempre”.
O estado presente não precisa se tornar uma previsão sobre o futuro.
Autocompaixão também é permitir-se sentir
A maneira como nos tratamos diante das emoções também faz diferença. Muitas vezes somos capazes de compreender a tristeza, o medo ou a insegurança de alguém de quem gostamos, mas reagimos às nossas próprias emoções com crítica.
“Eu deveria ser mais forte.”
“Não tenho motivo para estar assim.”
“Preciso superar isso.”
A autocompaixão propõe uma relação diferente. Não significa alimentar o sofrimento ou abandonar a responsabilidade sobre nossas escolhas. Significa reconhecer que momentos difíceis fazem parte da experiência humana e que podemos atravessá-los sem acrescentar hostilidade contra nós mesmos.
Talvez não precisemos gostar daquilo que sentimos para nos tratar com respeito enquanto sentimos.

O que muda quando paramos de lutar?
Parar de lutar contra uma emoção não significa que ela desaparecerá. Talvez ela continue presente. A diferença é que deixamos de gastar parte da nossa energia tentando negar aquilo que já está acontecendo.
A partir daí, podemos começar a perguntar: o que essa emoção está sinalizando? O que acontece no meu corpo quando ela surge? Que pensamentos aparecem junto dela? Existe alguma ação necessária ou estou apenas tentando escapar do desconforto?
Nem toda emoção precisa ser analisada profundamente, assim como nem toda emoção exige uma resposta. Algumas experiências podem simplesmente ser percebidas enquanto se transformam.
O objetivo não é alcançar um estado em que nada mais nos incomode. Uma vida sem medo, tristeza, raiva ou frustração não parece uma expectativa muito compatível com a experiência humana.
Talvez saúde emocional tenha menos relação com eliminar emoções difíceis e mais com desenvolver recursos para estar diante delas sem sermos completamente conduzidos por elas.
Acolher uma emoção não é entregar-se a ela. É reconhecer sua presença sem precisar fugir, lutar ou permitir que ela decida, sozinha, aquilo que faremos a seguir.




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