Você não é a voz que te critica: o alívio de largar o microfone

Se não existe um "eu" fixo no comando, o que sobra? À primeira vista, a ideia de não ter um eu sólido parece um absurdo. Afinal, fomos educados a acreditar que a voz que nos acompanha 24 horas por dia, comentando cada passo que damos, é quem nós somos de verdade.
Essa voz funciona como um crítico de plantão. Ela nos diz o que deveríamos estar pensando ou sentindo, nos rotula como insuficientes ou melhores do que os outros e distribui julgamentos silenciosos o tempo todo.
Fomos treinados para tratar esse falatório como se fosse uma estrutura concreta e imutável dentro do cérebro. Mas a verdade é que essa voz na cabeça é apenas uma história sobre quem nós somos. Ela não é a nossa essência.
A ilusão do filme na nossa cabeça
Para entender melhor essa dinâmica, pense na mente como um diretor de cinema obcecado. Ele projeta um filme na tela o tempo todo: cria dramas, coloca trilhas sonoras tensas em situações simples, ressuscita cenas do passado e inventa finais trágicos para o futuro.
Mas a projeção na tela obviamente não é a realidade. O mundo lá fora continua acontecendo, luminoso e silencioso, independentemente do filme que a mente escolheu exibir agora.
O nosso grande erro, que o Budismo nos ajuda a enxergar, é que nós nos esquecemos de que somos o espaço onde a vida acontece. Nós nos confundimos com o filme. Passamos a acreditar que somos aquele personagem sofrido ou ansioso da tela, esquecendo que, na verdade, nós somos a luz que permite que a imagem exista.

O preço de uma identidade errada
Essa confusão de identidade tem um custo muito alto para o nosso bem-estar. Embora essa voz interna possa às vezes nos inspirar ou motivar, na maior parte do tempo ela gera uma enxurrada de preocupações, inseguranças e cobranças.
Quando acreditamos cegamente no narrador, passamos a sofrer por antecedência com cenários que nem sequer existem.
A liberdade sutil que o Budismo propõe nasce no momento em que largamos o microfone. Quando você percebe que é o campo onde a vida acontece, e não a voz que critica a jogada, o peso simplesmente desaparece. Você finalmente se permite apenas jogar, em paz.
Da próxima vez que a sua mente começar a criticar as suas escolhas, experimente sorrir e lembrar: isso é só o narrador falando.




Comentários