Vaga no Shopping
- Vitória Mota
- 18 de mai.
- 3 min de leitura

Sou dado a fantasias. Construo monstros invisíveis dentro de minha mente. Vou para lugares que nunca pensei existir. Histórias e mais histórias ganham dimensões inimagináveis. Basta algo passar por perto. Aí vou para mundo paralisante. Fico dentro de enredo que pode sufocar. Pensei em mudar essa realidade interior.
Talvez sejam reminiscências de complexos escondidos. Antigamente me assustavam. Acho que escondiam as fantasias mirabolantes. Pensei tomar atitude.
A lógica da vida segue caminhos próprios. Alegrou-me os ensinamentos espirituais orientais. Viagem. E tome-lhe especulação. Mergulho, possibilidades insuspeitas. Principalmente paz. Para tanto, dentre outros requisitos, o desapego.

E aí me vejo tomado pela vaga no Shopping Center. O paraíso da religião consumo é dotado de força irresistível. Frequentamos, mesmo sem ter o que fazer. Se tiver, o mergulho no culto gastar é completo. Precisamos de vaga para estacionar o carro.
De repente, eis que de repente, aparece uma. Corro feito louco para entrar no seu espaço. Ufa! Cheguei lá. Como se fosse um gozo. Estou pronto para ingressar no espaço sagrado. Entro. Esqueço logo da vaga.
Perfilho lojas, esqueço o que ia fazer. Sempre nas livrarias, claro. Sem objetivo tangente, estou por lá. De vez em quando deixo escapulir os pensamentos e pronto: compro algo, além dos livros.

Cansado, volto ao carro. Dou com minha vaga. Olha o problema: a tal da possessividade! Vou deixar a vaga, penso. Se precisar dela depois. Não é bem isso. Num átimo de segundo passa algo como se estivesse perdendo algo. Você não precisa e queria, para momento futuro vago e incerto. A sensação passa quase invisível.
Volto então às minhas fantasias. Espero que sirva para algo. Precisamos de coisas mais que as nossas necessidades? Esse me parece ensinamento de ordem espiritual, ética e moral. Vou passar o olho em visão possivelmente espiritual.
Dou logo um chute na ideia de pregador. Invisto na interpretação rasa de certas leituras. Começo pelos excessos. O do peso, de que fui vítima, pode ser causado pela gula: comer mais que o necessário; a ansiedade, pode resultar de se querer mais e mais, sem se conseguir saber como, onde cada conquista inspira mais uma em ciclo interminável; a ganância, pela qual se busca muito e muito sem parar; a luxúria, que se quer mais e mais prazer.
Aí volto aos meus sensuais ensinamentos espirituais. Uma beleza. Quando a gente lê, encantos e mais encantos. Parece que o mundo toma cor diferente. Vem de outra dimensão. Parece outro mundo que se revela. Distanciamo-nos dos comuns: joga-me para proximidade daqueles religiosos tradicionais! Como fico parecido!

Volto para a rua. O dia. O tato. Contato com o próximo. Vejo jogado em forças que não entendo, quando visualizo a imagem plácida dos ensinamentos. O corte da realidade me parece desafiador.
E o encantamento das lições parece naufragar: uma simples vaga de garagem dá sinal, ainda que em milionésimo de segundos, do quanto a imaginação traça roteiro distinto. Aí nova construção aparece: será verdade que os mestres aplicam isso na prática? A vida deles seria diferente? Essa paz que transmitem é possível? O conforto que suas ideias passam é viável? O sentir as energias descritas é tangível?
Algo existe dentro da gente. O rio não tomaria curso dessa natureza sem existência. Aliás, sequer falaria nisso se não sentisse algo. Vou em frente. Quero ir, melhor dizendo. O rumo fica pelo coração. Desfazem-se as construções. Quero deixar de lado as criações internas. Sentir. Fluir e voar. Acredito que somente quando deixar de pensar nessas coisas. Aí, penso, poderei visualizar o ensinamento dos mestres.
Aqui, porém, estou raciocinando para escrever. Deixando de lado aquela ideia bonita do fluir, deixar energias tomarem conta e traduzir o que não se fala. Pudera. Seria mais simples descansar desse ritmo, que pode até ser controle do que não se controla. Deixar. Seguir. E fico sem palavras para conclusão: apenas caminho.




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