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Por que temos tanta dificuldade de viver o presente?

Frederico Cesário
28 de ago.
4 min de leitura

Estamos fisicamente em um lugar enquanto, mentalmente, podemos estar em muitos outros. Durante uma conversa, pensamos no compromisso seguinte. No trabalho, lembramos de algo que aconteceu pela manhã. Quando finalmente temos um momento de descanso, começamos a organizar mentalmente o dia seguinte. E até em experiências que desejamos por muito tempo, como uma viagem ou um encontro especial, podemos perceber a mente ocupada com aquilo que ainda acontecerá.

Essa tendência de transitar entre passado e futuro faz parte da experiência humana. Precisamos da memória para aprender e precisamos antecipar situações para planejar nossas vidas. O problema não está em pensar no que passou ou no que virá, mas em perceber que, muitas vezes, fazemos isso de maneira tão automática que o presente se transforma apenas em um intervalo entre aquilo que aconteceu e aquilo que esperamos que aconteça.

Nossa mente gosta de viajar no tempo

A capacidade de imaginar situações que ainda não aconteceram é extremamente útil. É graças a ela que conseguimos organizar compromissos, estabelecer objetivos e nos preparar para possíveis dificuldades. Da mesma maneira, revisitar experiências anteriores nos permite aprender, recordar pessoas importantes e compreender nossa própria história.

Mas essa capacidade também pode produzir sofrimento. Quando voltamos repetidamente ao passado tentando modificar mentalmente aquilo que já aconteceu, podemos alimentar culpa, arrependimento ou ressentimento. Quando permanecemos excessivamente no futuro, podemos transformar possibilidades em ameaças e experimentar ansiedade diante de acontecimentos que ainda não existem.

A mente pode estar tentando resolver alguma coisa, mas nem sempre existe algo que possa ser resolvido naquele momento.

A tentativa de controlar o futuro

Uma das razões pelas quais permanecemos tanto no futuro é nossa busca por segurança. Queremos saber o que acontecerá, como as pessoas reagirão, se nossas escolhas darão certo e se aquilo que valorizamos continuará conosco. Criamos cenários, ensaiamos conversas e antecipamos problemas como se pensar suficientemente sobre eles pudesse diminuir a incerteza.

Em alguma medida, planejar é necessário. Mas existe uma diferença entre planejamento e tentativa de controle. Planejar reconhece que o futuro contém incertezas e nos prepara para algumas delas. Tentar controlar mentalmente o futuro pressupõe que, se pensarmos o suficiente, talvez consigamos eliminar essa incerteza.

O resultado pode ser paradoxal: quanto mais buscamos segurança por meio da antecipação, mais possibilidades encontramos para nos preocupar.

A vida, porém, continua acontecendo enquanto pensamos sobre aquilo que ainda não aconteceu.

E se o presente não for confortável?

Também podemos nos afastar do presente porque nem sempre gostamos daquilo que encontramos nele. Estar presente não significa necessariamente encontrar tranquilidade. Às vezes, quando diminuímos a velocidade, encontramos ansiedade, tristeza, inquietação, tédio ou sensações que preferíamos evitar.

Por isso, permanecer ocupado pode funcionar como uma maneira de não entrar em contato com determinadas experiências internas. Planejamos, consumimos informações, buscamos distrações e preenchemos cada intervalo disponível.

Nesse sentido, estar presente não é simplesmente uma técnica de relaxamento. Pode exigir disposição para perceber aquilo que está acontecendo, inclusive quando não corresponde ao que gostaríamos de sentir.


Mindfulness não significa parar de pensar

Existe uma interpretação comum de que praticar mindfulness seria conseguir manter a mente completamente concentrada no presente, sem pensamentos sobre passado ou futuro. Quando isso não acontece, a pessoa pode concluir que “não consegue” praticar.

Mas a mente vai se distrair.

Vai lembrar.

Vai antecipar.

Vai criar histórias.

A prática não está necessariamente em impedir esse movimento, mas em reconhecê-lo. Perceber que a atenção foi levada para outro lugar e retornar à experiência presente é parte do próprio exercício de mindfulness.

Podemos voltar para a respiração, para as sensações do corpo, para os sons ao redor ou simplesmente para aquilo que estamos fazendo. Não porque essas experiências sejam especiais, mas porque estão acontecendo agora.

A respiração como contato com o agora

Respiramos milhares de vezes ao longo do dia e raramente percebemos. Enquanto nossos pensamentos podem estar vinte anos no passado ou dez anos no futuro, a respiração permanece vinculada ao momento presente.

Por isso, prestar atenção ao ar entrando e saindo do corpo pode funcionar como um ponto de referência. Não é necessário respirar de uma maneira específica nem tentar produzir determinado estado emocional. Podemos apenas perceber que estamos respirando.

A preocupação pode continuar presente. O pensamento pode continuar existindo. A questão é que, por alguns instantes, nossa atenção deixa de estar completamente absorvida por ele.

Esse movimento simples pode nos lembrar de algo que frequentemente esquecemos: enquanto pensamos sobre a vida, também estamos vivendo.

O presente também é impermanente

Existe outra dimensão importante nessa discussão. Frequentemente imaginamos o presente como um ponto estático no qual deveríamos conseguir permanecer. Mas o próprio presente está continuamente mudando.

Uma sensação surge e desaparece. Um som começa e termina. Uma emoção muda de intensidade. Uma respiração dá lugar à seguinte.

Estar presente, portanto, não significa agarrar o agora. Significa perceber esse movimento enquanto ele acontece.

Essa perspectiva também nos aproxima da impermanência. Talvez parte do sofrimento venha não apenas de estarmos fora do presente, mas de querermos que determinadas experiências permaneçam quando finalmente conseguimos vivê-las.

Presença não é possuir o momento. É estar disponível para ele enquanto existe.

A vida não começa quando tudo estiver resolvido

Existe sempre alguma coisa por fazer. Uma preocupação para resolver, uma meta para alcançar, uma situação que gostaríamos de mudar. Podemos facilmente construir a expectativa de que estaremos mais presentes quando a vida estiver organizada, quando tivermos mais tempo ou quando determinada dificuldade finalmente terminar.

Mas outra questão provavelmente ocupará seu lugar.

Talvez viver o presente não dependa de chegar a uma condição ideal de tranquilidade. Pode começar justamente no meio da vida como ela está: com tarefas, incertezas, emoções agradáveis e desagradáveis, pensamentos e interrupções.

Não precisamos abandonar nossos planos nem esquecer nossa história. Passado e futuro têm seu lugar. A questão é perceber quando eles começam a ocupar tanto espaço que deixamos de experimentar aquilo que está diante de nós.

O futuro merece planejamento. O passado pode merecer compreensão. Mas a vida só pode ser experimentada no presente.

 
 
 

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