top of page
Untitled.png

Mindfulness e psicoterapia: onde elas se encontram e onde seguem caminhos diferentes?

Frederico Cesário
31 de ago.
5 min de leitura

Nas últimas décadas, mindfulness passou a ocupar um espaço cada vez maior no campo da saúde mental. Práticas de atenção plena foram incorporadas a diferentes abordagens terapêuticas e se popularizaram como recursos para lidar com ansiedade, estresse, pensamentos recorrentes e dificuldades emocionais. Essa aproximação trouxe contribuições importantes, mas também favoreceu uma confusão: mindfulness e psicoterapia passaram, algumas vezes, a ser apresentados como se fossem diferentes caminhos para chegar exatamente ao mesmo lugar.

Não são. Embora possam se encontrar e até se complementar, mindfulness e psicoterapia possuem histórias, objetivos e métodos distintos. Compreender essa diferença é importante para não esperar da meditação aquilo que pertence a um processo psicoterapêutico e, ao mesmo tempo, para não reduzir mindfulness a uma simples técnica para melhorar a saúde mental.

O que acontece quando praticamos mindfulness?

Mindfulness costuma ser traduzido como atenção plena. De maneira geral, envolve desenvolver a capacidade de perceber aquilo que está acontecendo no momento presente, incluindo pensamentos, emoções, sensações corporais e estímulos externos, sem reagir automaticamente a cada experiência.

Isso não significa esvaziar a mente ou alcançar um estado permanente de tranquilidade. Durante a prática, pensamentos continuarão aparecendo, emoções poderão surgir e a atenção inevitavelmente se afastará do presente em determinados momentos.

A prática está também em perceber esse movimento.

Podemos notar que começamos a pensar sobre uma conversa, reconhecer que uma preocupação surgiu ou perceber determinada sensação no corpo. Em vez de imediatamente seguir aquela experiência, podemos observá-la.

Esse processo cria uma possibilidade importante: perceber que ter um pensamento não significa necessariamente acreditar nele e que sentir uma emoção não significa precisar agir imediatamente a partir dela.

E o que acontece na psicoterapia?

A psicoterapia também pode ampliar nossa consciência sobre pensamentos, emoções e comportamentos, mas existe nela uma dimensão diferente: a possibilidade de compreender e elaborar nossa experiência dentro de uma relação terapêutica.

Nossa maneira de viver o presente não surgiu apenas no presente. Ela também foi construída ao longo de uma história.

A forma como reagimos à rejeição, estabelecemos vínculos, lidamos com conflitos, buscamos aprovação ou nos tratamos diante dos próprios erros pode estar relacionada a experiências anteriores e a maneiras que desenvolvemos para lidar com aquilo que vivemos.

Na psicoterapia, essas questões podem ser exploradas com maior profundidade. Não se trata apenas de perceber que determinada emoção surgiu, mas também de compreender como ela aparece, em quais contextos, quais significados atribuímos a ela e como determinados padrões se repetem em nossa vida.

Observar não é necessariamente elaborar

Essa talvez seja uma das diferenças mais importantes entre as duas práticas.

Imagine que uma pessoa perceba, durante uma prática de mindfulness, uma forte ansiedade diante da possibilidade de ser rejeitada. Ela pode observar as sensações corporais, reconhecer os pensamentos que surgem e perceber o impulso de buscar imediatamente alguma forma de segurança.

Tudo isso pode ser valioso.

Mas talvez ainda existam perguntas importantes: por que determinadas situações despertam tamanho medo de rejeição? Esse padrão aparece em outras relações? Como essa pessoa costuma agir quando sente essa ameaça? O que aprendeu ao longo da vida sobre abandono, afeto ou segurança?

Perceber uma experiência e compreender sua história são processos relacionados, mas não idênticos.

Mindfulness pode ajudar a reconhecer o que está acontecendo. A psicoterapia pode oferecer um espaço para investigar, compreender e elaborar aquilo que foi percebido.

Onde mindfulness e psicoterapia se encontram?

Apesar dessas diferenças, existe uma aproximação importante entre elas. Mindfulness pode ser utilizado dentro de contextos terapêuticos como um recurso para ampliar a percepção sobre pensamentos, emoções e sensações.

Uma pessoa que costuma reagir imediatamente à raiva, por exemplo, pode aprender a reconhecer seus sinais antes que a reação aconteça. Alguém muito identificado com pensamentos autocríticos pode começar a percebê-los como acontecimentos mentais, e não necessariamente como descrições objetivas de quem é.

Esse tipo de observação pode contribuir para o trabalho psicoterapêutico porque oferece novas informações sobre a experiência.

Em vez de apenas dizer “sou assim”, a pessoa pode começar a perceber: “isso acontece comigo quando estou diante de determinadas situações”.

Essa mudança já abre outras possibilidades de investigação.

Mindfulness não precisa ser usado para eliminar emoções

Outro ponto importante nessa aproximação é evitar que mindfulness se transforme em uma estratégia para não sentir.

Quando estamos ansiosos, tristes ou irritados, podemos querer utilizar a meditação como uma maneira de fazer aquela experiência desaparecer. Se a emoção continua presente, podemos concluir que a prática “não funcionou”.

Mas estar atento ao presente não significa necessariamente sentir-se bem.

Às vezes, o presente contém desconforto. Uma prática de mindfulness pode justamente tornar mais perceptível algo que já estava acontecendo, mas que permanecia encoberto por distrações e automatismos.

A questão deixa de ser apenas “como faço isso passar?” e pode se transformar em “como estou me relacionando com aquilo que está presente?”.

Essa mudança de perspectiva também pode ser relevante na psicoterapia.

E mindfulness não substitui necessariamente a psicoterapia

A popularização das práticas meditativas também criou a ideia de que seria possível resolver qualquer sofrimento emocional individualmente por meio de atenção plena. Essa expectativa merece cuidado.

Existem situações em que uma pessoa precisa de um espaço relacional de escuta e acompanhamento profissional. Há experiências que não precisam apenas ser observadas, mas também compreendidas, nomeadas e elaboradas.

Em algumas situações, inclusive, questões de saúde mental podem exigir avaliação e acompanhamento de profissionais qualificados, e uma prática contemplativa não deve ser utilizada como substituta automática desse cuidado.

Isso não diminui o valor do mindfulness. Apenas reconhece seus limites.

Uma ferramenta pode ser extremamente valiosa sem precisar servir para tudo.

A psicoterapia também não precisa analisar tudo

O movimento contrário também merece atenção. Se mindfulness nos lembra que nem todo pensamento precisa ser seguido, ele também pode nos mostrar que nem toda experiência precisa necessariamente ser transformada em uma longa investigação.

Às vezes, um pensamento surge e passa. Uma emoção aparece e se transforma. Uma sensação pode ser simplesmente percebida.

Nem tudo exige uma explicação imediata.

Nesse ponto, mindfulness pode oferecer à psicoterapia uma contribuição interessante: a possibilidade de permanecer com a experiência antes de tentar interpretá-la.

Há momentos para compreender nossa história e há momentos para simplesmente perceber aquilo que está acontecendo.

E onde o budismo entra nessa discussão?

Existe ainda outra distinção importante. Embora mindfulness tenha sido incorporado a diferentes práticas contemporâneas de saúde mental, suas raízes estão ligadas às tradições contemplativas budistas.

Nesse contexto original, mindfulness não foi desenvolvido simplesmente como uma técnica para reduzir ansiedade, aumentar produtividade ou produzir bem-estar. Ele faz parte de um caminho muito mais amplo de investigação sobre sofrimento, impermanência, apego e a própria ideia de um eu permanente.

Quando práticas de mindfulness são utilizadas na psicoterapia, elas podem assumir objetivos diferentes. Isso não torna sua utilização inadequada, mas é importante reconhecer que estamos diante de contextos distintos.

A psicoterapia pode utilizar mindfulness para ajudar uma pessoa a desenvolver uma relação mais saudável com sua experiência. A tradição budista coloca essa observação dentro de uma investigação mais ampla sobre a própria natureza da experiência e do sofrimento.

Confundir completamente esses objetivos pode empobrecer tanto a compreensão da psicoterapia quanto a do mindfulness.

Não precisamos escolher um lado

Talvez a pergunta mais interessante não seja “o que é melhor: mindfulness ou psicoterapia?”. Essa comparação parte da ideia de que ambos deveriam cumprir a mesma função.

Podemos pensar de outra maneira.

Mindfulness pode nos ajudar a perceber quando a mente está construindo uma história, quando uma emoção está surgindo ou quando estamos reagindo automaticamente. A psicoterapia pode oferecer um espaço para compreender como determinados padrões foram construídos, como aparecem nas nossas relações e quais possibilidades existem diante deles.

Em determinados momentos, uma prática contemplativa pode ser suficiente para aquilo que buscamos. Em outros, podemos precisar de acompanhamento psicoterapêutico. E há situações em que as duas abordagens podem coexistir.

Cuidar de si também envolve reconhecer que diferentes formas de sofrimento podem pedir diferentes formas de cuidado.

Mindfulness pode nos ensinar a observar a experiência. A psicoterapia pode nos ajudar a compreendê-la e elaborá-la. Quando reconhecemos suas diferenças, podemos aproveitar melhor aquilo que cada uma tem a oferecer.

 
 
 

Comentários


bottom of page