Impermanência: por que aceitar que tudo muda pode diminuir o sofrimento

Existe uma contradição presente em boa parte da nossa experiência: sabemos que a vida muda o tempo inteiro, mas frequentemente vivemos como se aquilo que temos, sentimos e conhecemos devesse permanecer exatamente como está. Queremos prolongar momentos agradáveis, conservar relações da maneira como as conhecemos, manter conquistas, preservar certezas e evitar mudanças que ameacem aquilo que nos oferece segurança.
Quando alguma dessas coisas se transforma, podemos sentir frustração, medo, tristeza ou resistência. Não necessariamente porque a mudança seja ruim, mas porque existe uma distância entre aquilo que está acontecendo e aquilo que gostaríamos que continuasse acontecendo. É nesse espaço que a ideia de impermanência pode oferecer uma perspectiva importante sobre nossa relação com o sofrimento.
O que é impermanência?
Na tradição budista, a impermanência está relacionada ao reconhecimento de que todas as experiências condicionadas estão sujeitas à transformação. Isso inclui situações externas, mas também aquilo que acontece dentro de nós: pensamentos, emoções, sensações, desejos e percepções.
Podemos perceber isso na experiência cotidiana. Uma alegria intensa perde força. Uma preocupação que parecia ocupar toda a nossa mente desaparece. Relações se transformam, interesses mudam e aquilo que um dia considerávamos indispensável pode deixar de ter importância.
Ainda assim, temos dificuldade de aceitar esse movimento. Quando encontramos algo agradável, desejamos que continue. Quando encontramos algo desagradável, queremos que desapareça imediatamente. Em ambos os casos, tentamos negociar com uma característica fundamental da experiência: ela muda.

Quando esperamos permanência do que é impermanente
Grande parte das nossas frustrações pode surgir justamente da expectativa de permanência. Não basta viver uma experiência agradável; queremos ter certeza de que ela continuará. Não basta amar alguém; gostaríamos de garantir que aquela relação nunca mudará. Não basta conquistar algo; esperamos que a satisfação provocada pela conquista permaneça.
Mas nenhuma dessas garantias existe.
Isso não significa que devemos nos tornar indiferentes às pessoas ou deixar de construir projetos para o futuro. Reconhecer a impermanência não é abandonar vínculos, desejos ou objetivos. É compreender a natureza deles.
Talvez a dificuldade não esteja apenas no fato de as coisas mudarem, mas na nossa expectativa de que não deveriam mudar.
Por que a satisfação não permanece?
Podemos passar meses desejando alguma coisa e imaginar que, quando finalmente a alcançarmos, estaremos satisfeitos. Quando isso acontece, existe prazer, realização ou alívio. Depois de algum tempo, porém, aquela experiência passa a fazer parte da vida cotidiana e um novo desejo aparece.
Esse movimento não significa necessariamente ingratidão. Nossa própria experiência está em transformação. Aquilo que nos satisfaz hoje pode não produzir o mesmo efeito amanhã porque nós também não somos exatamente os mesmos.
A dificuldade surge quando buscamos em experiências transitórias uma sensação permanente de completude. Criamos uma expectativa que nenhuma conquista, relacionamento ou circunstância consegue sustentar indefinidamente.
Talvez seja por isso que nada na vida pareça 100% satisfatório por muito tempo. Não porque haja algo necessariamente errado conosco ou com aquilo que conquistamos, mas porque esperamos permanência de uma experiência que, por natureza, está em movimento.

Aceitar a mudança não significa gostar dela
Existe também um equívoco comum em torno da aceitação. Aceitar que algo mudou não significa considerar a mudança boa, justa ou desejável. Também não significa deixar de sentir tristeza quando algo importante termina.
Podemos compreender intelectualmente que tudo é impermanente e, ainda assim, sofrer diante de uma perda. A consciência da impermanência não elimina a experiência humana.
O que ela pode modificar é nossa relação com aquilo que acontece.
Em vez de acrescentarmos à dor a exigência de que “isso não poderia ter acontecido” ou “isso deveria continuar como antes”, começamos a reconhecer que transformação, perda e mudança fazem parte da vida que estamos tentando viver.
A impermanência também vale para aquilo que dói
Curiosamente, costumamos perceber a impermanência principalmente quando algo que desejamos conservar começa a desaparecer. Mas ela também está presente nas experiências difíceis.
Uma emoção intensa não permanece com exatamente a mesma força para sempre. Pensamentos mudam. Circunstâncias se transformam. Nossa maneira de compreender aquilo que aconteceu também pode mudar.
Quando estamos atravessando um momento difícil, entretanto, a mente pode produzir uma sensação de permanência: “vai ser sempre assim”, “nunca vou superar isso” ou “minha vida será dessa maneira daqui para frente”.
É justamente nesses momentos que reconhecer a impermanência pode ser importante. Não como uma promessa de que tudo ficará bem rapidamente, mas como um lembrete de que o estado presente também está sujeito à transformação.

Estar presente em uma vida que muda
Talvez compreender a impermanência nos convide a uma relação diferente com o presente. Se sabemos que uma experiência não permanecerá exatamente como está, podemos estar mais disponíveis para vivê-la enquanto acontece, em vez de tentar segurá-la ou antecipar seu fim.
Isso vale para uma conversa, uma viagem, um encontro com alguém importante, uma fase da vida e até para acontecimentos aparentemente banais do cotidiano.
Mindfulness pode contribuir para esse processo ao desenvolver nossa capacidade de perceber a experiência como ela se apresenta agora. Não para congelar o presente, mas justamente para reconhecê-lo em seu movimento.
A vida não precisa permanecer para ter valor.
Talvez possamos apreciar aquilo que é agradável sem exigir que dure para sempre, atravessar aquilo que é difícil sem acreditar que será eterno e reconhecer que nós mesmos continuamos mudando ao longo desse processo.
A impermanência não é apenas aquilo que nos tira as coisas. É também aquilo que permite que novas experiências sejam possíveis.




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