Quando a terapia não precisa de fala
- Vitória Mota
- 24 de abr.
- 1 min de leitura

Há uma ideia implícita de que a terapia precisa sempre produzir algo visível: uma interpretação, um insight, uma frase que “faz sentido”. Mas existem momentos em que a fala atrapalha. Momentos em que qualquer tentativa de organizar a experiência a empobrece.
A terapia não acontece apenas no que é dito. Ela acontece no ritmo, na pausa, na respiração compartilhada, no modo como alguém é escutado sem ser conduzido. Há encontros terapêuticos em que o mais transformador é não ser apressado.

O silêncio clínico não é omissão. É presença sem direção forçada. É confiança de que algo está se movendo mesmo quando não pode ser nomeado. O terapeuta, nesses momentos, sustenta um campo onde a experiência pode existir sem ser corrigida.
Essa postura exige maturidade. Exige tolerar o não saber. Exige resistir à tentação de “fazer algo” para aliviar a própria ansiedade. Porque, muitas vezes, quem mais se angustia com o silêncio é quem está ouvindo, não quem está vivendo a experiência.
A terapia profunda sabe que nem todo processo é linear. Que há tempos de incubação. Que há compreensões que só surgem depois que algo foi vivido até o fim. Falar cedo demais pode ser uma forma de interromper o amadurecimento da experiência.




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