O silêncio não cura, mas desvela
- Vitória Mota
- 20 de abr.
- 1 min de leitura

Há uma expectativa quase mágica depositada no silêncio. Como se ele fosse uma técnica de purificação. Como se bastasse calar para que a vida se organizasse sozinha. Mas o silêncio não cura. Ele não resolve conflitos. Ele não elimina dores. O silêncio faz algo mais sutil — e mais arriscado.
O silêncio desvela.
Quando o ruído interno diminui, aquilo que estava abafado aparece. Emoções sem nome. Sensações corporais ignoradas. Medos que não se sustentam em palavras. O silêncio não cria essas experiências; ele apenas retira o excesso que as mantinha invisíveis.
Por isso, o silêncio assusta. Não porque seja vazio, mas porque é cheio demais. Cheio de vida não mediada, não organizada, não explicada. Para quem vive muito tempo sustentado por narrativas, teorias e justificativas, o silêncio pode soar como perda de controle.

Na clínica, há momentos em que falar menos é fazer mais. Momentos em que uma interpretação bem formulada seria uma invasão. O silêncio, nesses instantes, não é ausência de trabalho terapêutico. É o próprio trabalho acontecendo num nível que não cabe na linguagem.
Há experiências que se tornam menores quando nomeadas cedo demais. Como se fossem arrancadas de um campo sagrado e colocadas sob luz forte demais. O silêncio, nesses casos, funciona como cuidado. Como um modo de não violentar o que ainda está se formando.
Escutar o silêncio não é escutar nada. É escutar sem pressa. É permitir que o sentido emerja quando estiver pronto — ou que não emerja. Nem tudo precisa virar compreensão. Algumas vivências pedem apenas que não sejam interrompidas.




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