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O pêndulo não é indecisão: é aprisionamento

  • Foto do escritor: Vitória Mota
    Vitória Mota
  • 4 de mar.
  • 2 min de leitura

Há pessoas que se acusam de indecisas, quando na verdade estão presas. O artigo de O’Donoghue oferece uma lente preciosa para diferenciar uma coisa da outra: quando alguém oscila entre dois polos, o movimento pode parecer escolha, mas muitas vezes é apenas a estrutura dicotômica empurrando a pessoa de um lado para o outro.

A lógica é cruel e simples: se um polo se torna insustentável, a pessoa corre para o outro, como quem foge de um incêndio e cai no mar. E então volta. E então volta. O pêndulo vira rotina, e a vida passa a ser administrada como emergência permanente.

É por isso que o problema não é apenas “encontrar equilíbrio”. É perceber como o pensamento foi organizado para não ver alternativas. Em muitas polaridades, o meio não aparece como possibilidade real. Ele aparece como um vazio, um território sem linguagem.

O’Donoghue aproxima essa ideia do trabalho de George Kelly, com o corolário da dicotomia: construímos o mundo com pares de opostos. Mesmo quando não nomeamos o oposto, ele está lá, implicado. Dizer “bom” traz consigo “não bom”. Dizer “falar” traz consigo “não falar”. A mente, para organizar a realidade, divide. E essa divisão pode ser útil, mas também pode aprisionar.

O texto vai além e toca na tradição budista Madhyamika: não apenas reconhecer a dicotomia, mas observar como ela se torna “real” na linguagem. Falamos como se um polo existisse sozinho, separado. Como se “bom” existisse independente do “ruim”. Como se “controle” existisse independente do “descontrole”. Essa falsa independência dá uma sensação de chão. Mas ela cobra um preço: quando o polo escolhido se torna impossível de sustentar, o oposto o puxa como um imã.

O mais bonito, na adaptação terapêutica do caminho do meio, é que ela não precisa virar filosofia abstrata. Ela pode ser prática: transformar uma polaridade 0/10 em uma escala com degraus menores. Trocar o “tudo/nada” por “um pouco menos”, “um pouco mais”, “do jeito possível hoje”.

Essa mudança parece óbvia quando a vemos, mas O’Donoghue chama atenção para o risco da obviedade. Para o terapeuta, o meio parece evidente. Para o cliente, não. É como uma gestalt visual: depois que você enxerga, não consegue “desenxergar”. Mas antes de ver, não adianta insistir.

E talvez seja aqui que mora um dos trabalhos mais delicados da clínica: não dizer “seja equilibrado”, mas criar condições para que o meio finalmente se torne visível.

Porque quando o meio aparece, o pêndulo desacelera. E quando o pêndulo desacelera, a pessoa volta a ter vida.

 
 
 

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