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O pertencimento como anestesia

  • Foto do escritor: Vitória Mota
    Vitória Mota
  • 30 de abr.
  • 1 min de leitura

Pertencer é uma necessidade humana profunda. Antes de ser escolha, é condição de sobrevivência. O corpo reconhece o pertencimento como segurança. O sistema nervoso relaxa quando sente que não está sozinho. Mas essa mesma força que sustenta pode anestesiar.

Há pertencimentos que não pedem pensamento, apenas adesão. Narrativas coletivas que oferecem abrigo ao custo da singularidade. Grupos, ideias, identidades que aliviam a angústia de existir, desde que o sujeito não questione demais.

Na terapia, muitas dores não vêm da ausência de sentido, mas do excesso de sentido herdado. A pessoa vive dentro de uma história que não escreveu, mas da qual não consegue sair sem sentir que perde o chão. Questionar a narrativa equivale a trair o grupo interno que a sustenta.

É por isso que pensar pode ser solitário. Não porque afaste os outros, mas porque afasta versões prontas de pertencimento. O pensamento genuíno não garante abrigo. Ele oferece, no máximo, honestidade.

A verdade, nesse contexto, não compete com o pertencimento. Ela o atravessa. Obriga a pessoa a perguntar: “a quem eu pertenço quando deixo de repetir o que me foi dado?” Essa pergunta não tem resposta rápida. Mas tem efeito.

Pertencer sem desaparecer talvez seja uma das tarefas mais difíceis da vida adulta.

 
 
 

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