O cansaço de viver como projeto
- Vitória Mota
- 11 de mar.
- 1 min de leitura

Existe um cansaço que não aparece nos exames médicos. Um esgotamento que não se resolve com férias nem com descanso físico. É o cansaço de viver como projeto. Como obra inacabada que precisa ser constantemente corrigida, ajustada, aprimorada.
Nesse modo de existir, a pessoa não vive; ela se administra. Avalia desempenho emocional, monitora reações, compara versões de si mesma. A vida vira um processo contínuo de autoauditoria. Nada é simplesmente vivido. Tudo precisa ser interpretado, melhorado, otimizado.
A ideia de “trabalhar em si” parece saudável à primeira vista, mas pode se tornar profundamente violenta quando não encontra limites. O sujeito nunca está suficiente. Nunca chegou. Nunca pode simplesmente estar.

O caminho do meio surge aqui como ruptura silenciosa. Não para abolir o desejo de crescimento, mas para interromper a tirania da melhoria constante. Há uma diferença radical entre amadurecer e se vigiar. Entre aprender e se fiscalizar.
Na clínica, muitas vezes é preciso desmontar a crença de que sofrer menos depende de fazer mais. De pensar melhor. De agir certo. O excesso de projeto gera um paradoxo: quanto mais a pessoa tenta se ajustar, mais distante fica de si mesma.

O cuidado não começa quando a vida melhora, mas quando a cobrança diminui. Quando a pessoa percebe que não precisa se transformar o tempo todo para merecer descanso.
Viver não é um plano estratégico. É um processo orgânico. E tudo que é orgânico precisa de pausas, falhas, zonas indefinidas. Sem isso, o que chamamos de crescimento vira apenas sobrevivência sofisticada.




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