A verdade não pede adesão, pede espaço!
- Vitória Mota
- 28 de abr.
- 1 min de leitura

Existe uma confusão persistente entre verdade e convencimento. Como se algo só fosse verdadeiro quando capaz de reunir concordância, gerar consenso ou produzir identificação imediata. Mas a verdade raramente se comporta assim. Ela não se apresenta como convite confortável. Ela chega como deslocamento.
A verdade, quando tocada, costuma desorganizar. Ela desmonta narrativas internas, descola identidades, fragiliza certezas que sustentavam o cotidiano. Por isso, muitas vezes, é evitada. Não porque seja desconhecida, mas porque é cara demais.
O que se busca com frequência não é a verdade, mas a sensação de estar certo. Estar certo organiza o mundo, cria pertencimento, alivia a angústia de não saber. A verdade, ao contrário, exige que algo em nós se mova. E movimento, quase sempre, implica perda.

Na clínica, isso aparece quando a pessoa repete versões de si mesma com grande convicção, mas pouca vitalidade. Narrativas bem estruturadas, coerentes, socialmente aceitas, mas emocionalmente vazias. O discurso funciona, mas algo não respira ali dentro.
A verdade não grita porque não precisa vencer ninguém. Ela não entra em disputa. Ela permanece disponível, aguardando que haja espaço suficiente para ser acolhida. E espaço, nesse caso, não é intelectual. É afetivo. É a capacidade de suportar não saber imediatamente quem se será depois que uma certeza cair.
Talvez por isso a verdade seja tão silenciosa. Ela não compete com o ruído. Ela apenas não desaparece.




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